sexta-feira, 12 de março de 2021

Milhares de mortes poderiam ter sido evitadas em janeiro e fevereiro de 2021 no Brasil

Rio de Janeiro, 11/03/2021

 

O governo federal do Brasil, um país com 212 milhões de habitantes, não está coordenando medidas de contenção de um vírus que matou aproximadamente 250 mil pessoas em 2020. Pelos dados mais recentes, as novas variantes do SARS-CoV-2 são aproximadamente 50% mais transmissíveis do que a variante original que causou todas essas mortes. Medidas de distanciamento, coordenadas por uma liderança central, são necessárias para evitar mortes, mesmo após a vacinação da população. Tudo indica que teremos que enfrentar esse vírus com cautela e atenção por mais alguns anos. As vacinas são uma enorme ajuda, mas não são suficientes.[1] Por isso, as estratégias para relaxamento das medidas de distanciamento devem ser estudadas por cientistas e aplicadas por políticos. Além disso, para podermos usufruir ao máximo dos benefícios das vacinas, é necessário estar alerta às oportunidades de obtenção (compra e fabricação) e focado na implantação e administração de um programa de vacinação rápido e eficiente. Até agora, é de conhecimento público e notório, inclusive internacionalmente, que o governo federal do Brasil não assumiu este papel crucial de liderança.

Para ilustrar apenas uma das consequências trágicas desta falta de liderança central, estimamos o número de mortes de pessoas com 60 anos ou mais entre janeiro e fevereiro de 2021. Esta ilustração talvez seja uma das evidências mais quantificáveis da responsabilidade direta do governo federal pela morte de milhares de pessoas.

 

Evidência de que o governo federal foi o responsável direto pela morte de milhares de pessoas

O Butantan ofereceu ao governo federal do Brasil em julho de 2020 uma opção de compra de 60 milhões de doses da vacina Coronavac. Somadas às vacinas de outras empresas (incluindo Oxford-AstraZeneca e Pfizer), essas doses permitiriam vacinar mais de 30 milhões de pessoas com as duas doses recomendadas. Essas doses estariam disponíveis no último trimestre de 2020.[2] Realisticamente, a vacinação no Brasil poderia ter começado aproximadamente em 10 de dezembro de 2020.[3] No Brasil há por volta de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Portanto, toda a população idosa do Brasil já poderia ter sido vacinada. Caso tivéssemos vacinado 2 milhões de pessoas por dia[4], em 16 dias, isto é, no dia 26 de dezembro de 2020, todos os idosos teriam recebido a primeira dose. A segunda dose seria administrada, em média, 21 dias após a primeira[5], portanto, em 15 de janeiro de 2021 todos os idosos teriam recebido a segunda dose. A eficácia inferida nos ensaios clínicos das vacinas mediu a incidência da COVID-19 a partir de algum tempo após a segunda dose (por exemplo, no sétimo dia após a segunda dose no ensaio da Pfizer). Portanto, fizemos a simulação contando as mortes a partir do dia 22 de janeiro de 2021.

Entre 22 de janeiro e 28 de fevereiro de 2021 foram registradas 33.676 mortes por COVID-19 em pessoas com 60 anos ou mais no Brasil.[6] Se todos os idosos tivessem sido vacinados com a segunda dose até 15 de janeiro de 2021, presumindo uma eficácia de 70% em reduzir o risco de morte pela COVID-19, teriam sido 10.102 óbitos, ao invés de 33.676 (figura).[7]

 


Esses dados revelam que 23.574 idosos, que morreram em pouco mais de um mês, não teriam morrido se tivessem sido vacinados!

Essas mortes teriam sido evitadas se o governo federal tivesse comprado em 2020 as doses oferecidas pelo Butantan, Oxford-AstraZeneca e Pfizer, e liderado o esforço para implantação de programa de vacinação desse grupo mais vulnerável ao SARS-CoV-2.


Conclusão

Como demonstrado, até este momento a atuação omissa e irresponsável do governo federal já causou milhares de mortes. O SARS-CoV-2 já demonstrou que é um vírus difícil e complexo de ser combatido. Por isso, necessitará de cientistas e líderes políticos focados e engajados nesta missão por mais alguns anos. O governo federal já deu provas de que não está focado e engajado nesta missão e, portanto, é uma ameaça direta e real para a vida de milhões de pessoas. O SARS-CoV-2 não espera para continuar evoluindo e se disseminando. Por isso, não podemos esperar pelas próximas eleições.

 

 

Paulo Nadanovsky.

Professor Titular, Departamento de Epidemiologia, Instituto de Medicina Social, UERJ.

Pesquisador Associado, Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, FIOCRUZ.

 



[1] Resultados recentes sobre as vacinas de RNAm estão se acumulando quase diariamente (por exemplo, Pfizer e Moderna), sugerindo que a efetividade dessas vacinas é extraordinária. Eles sugerem que essas vacinas são excepcionalmente efetivas não só em evitar casos graves incluindo mortes, como também em evitar a transmissão do vírus. Assim sendo, rapidamente essas vacinas podem efetivamente acabar com esta epidemia.

[3] A Anvisa aprovou a Coronavac e a AstraZeneca somente em 17 de janeiro de 2021, o que impossibilitaria o início da vacinação em 10 de dezembro de 2020. Porém, é difícil saber se, com a compra pelo governo federal em julho/agosto de 2020 e a atitude colaborativa entre fabricantes, governo e Anvisa, a aprovação teria sido mais cedo. Ainda que a aprovação, nessas circunstâncias hipotéticas mais favoráveis de colaboração entre as partes, tivesse ocorrido mesmo em 17 de janeiro de 2021, os números de mortes evitadas apresentados neste texto seriam similares, pois elas ocorreriam, se não a partir de janeiro, a partir de fevereiro/março 2021.  

[5] Em média, já que a segunda dose da Coronavac pode ser administrada entre 14 e 28 dias após a primeira dose.

[6] Portal transparência consultado em 10 de março de 2021 - https://transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid)

[7] A eficácia da Coronavac em reduzir o risco da doença menos grave foi de 50%. No entanto, parece que a efetividade de todas as vacinas contra a COVID-19, incluindo a Coronavac, em reduzir o risco de doença mais grave é maior do que em reduzir o risco de doença menos grave – estima-se que a efetividade neste caso seja em torno de 90 a 100%. Ainda assim, como essas estimativas ainda são imprecisas, e para sermos conservadores, simulamos uma efetividade menor, de 70%.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Como interpretar os benefícios das vacinas contra a COVID-19


Temos que comemorar muito as vacinas contra a COVID-19

 

A principal mensagem deste texto é de alívio e enorme satisfação pela disponibilidade de vacinas eficazes para acabar com essa pandemia em pouco tempo. O trabalho de muitos cientistas por vários anos desenvolvendo tecnologias para vacinas, o foco intensificado em 2020 para desenvolver vacinas específicas contra o SARS-CoV-2 e a sorte deste vírus ser “vacinável” (há vários vírus para os quais todos os esforços científicos não foram suficientes para criar uma vacina efetiva), geraram um resultado que devemos celebrar / comemorar muito.

 

Historicamente, as principais doenças infectocontagiosas não foram controladas por medidas médicas, tais como vacinas e antibióticos. Melhorias nas condições de vida, incluindo alimentação, habitação e higiene, foram os principais fatores que controlaram as principais doenças infecciosas. Por exemplo, a tuberculose, que foi o principal matador das populações humanas na Europa e nas Américas durante o século 19 e primeira metade do século 20, teve quase todo seu declínio associado a melhorias nas condições de vida; as contribuições da vacina e do antibiótico foram relativamente pequenas. Quando vacina e tratamento efetivo para a tuberculose finalmente foram descobertos e disponibilizados para a população, na década de 1950, quase todo o declínio de mortes pela tuberculose já havia ocorrido (ver Thomas McKeown, The role of Medicine). Após a década de 1950, o declínio da tuberculose acelerou marcadamente, atestando a grande efetividade da vacina e do antibiótico no controle desta doença. Desde então, o resquício de casos de tuberculose que continua a ameaçar a vida de muitas pessoas pode ser facilmente tratado por antibióticos efetivos.

 

Felizmente, ainda que não tenha sido descoberto um tratamento efetivo para tratar a COVID-19, foram descobertas vacinas que efetivamente evitam esta doença. Em comparação com outros momentos na história (incluindo a tuberculose nos séculos 19 e 20), estamos em uma situação privilegiada; temos vacinas efetivas para lidar com uma pandemia causada por um agente infeccioso novo na espécie humana, em menos de um ano de duração da pandemia. Nossos antepassados nunca tiveram recurso médico / farmacológico efetivo para lidar com doenças infectocontagiosas em tão pouco tempo após a introdução da doença na espécie humana. Esta é uma situação histórica inédita privilegiada.

 

 

O que as vacinas contra a COVID-19 nos proporcionam?

 

O que exatamente as vacinas disponíveis contra a COVID-19 nos trazem de benefício?

 

Até este momento sabemos que elas evitam que a pessoa vacinada tenha COVID-19. O que é uma pessoa com COVID-19? É uma pessoa que sente algum dos sintomas típicos da COVID-19 e testa positivo para a presença do vírus SARS-CoV-2. Esses sintomas são principalmente os seguintes: febre (37,8), tosse, dificuldade para respirar, perda de olfato e perda de paladar. Outros sintomas possíveis são: dores musculares, calafrios, dor de cabeça, dor de garganta, diarreia, congestão nasal, coriza, cansaço, enjoo, vômito e perda de apetite. Algumas pessoas fazem quadros mais graves de COVID-19 que levam à necessidade de internação hospitalar, tratamento hospitalar intensivo e em alguns casos até à morte. Até o momento, não sabemos com certeza se as vacinas evitam especificamente esses quadros mais graves.

 

O que as vacinas contra a COVID-19 parecem nos proporcionar?

 

Todas as análises dos dados dos estudos clínicos de fase 3 das vacinas até este momento foram interinas. Nenhum estudo já chegou ao final, por isso, há várias perguntas ainda não respondidas. Mas, como a situação da pandemia é grave, os resultados interinos, ainda que não conclusivos, podem indicar benefícios plausíveis (talvez até prováveis) que serão confirmados ao final dos estudos. Como as probabilidades de danos das vacinas parecem bem pequenas, vale a pena começar a usá-las mesmo antes de todos os possíveis benefícios serem comprovados com bom grau de certeza.

 

Os resultados interinos sugerem que as vacinas evitam os casos graves e mortes pela COVID-19. Ainda que o número de casos graves e mortes tenha sido insuficiente até este momento para assegurar a efetividade das vacinas em evitar esses casos, todos ocorreram nos participantes que receberam o placebo e nenhum entre os que receberam a vacina.

 

Os resultados interinos sobre infecções assintomáticas não foram divulgados até este momento. Mais ainda, não sabemos se as vacinas proporcionam proteção contra a infecção pelo SARS-CoV-2. Pode ser que as vacinas sejam capazes de evitar que o vírus cause sintomas de COVID-19 em pessoas infectadas, mas não de evitar que o vírus se reproduza no organismo da pessoa. Essa informação é crucial para sabermos se a vacina evita a transmissão do SARS-CoV-2. As transmissões ocorrem a partir de pessoas sintomáticas, pré-sintomáticas e assintomáticas. Se as vacinas não forem capazes de evitar a reprodução do vírus no organismo da pessoa vacinada, ela estará protegida da doença, mas poderá ainda assim transmitir o vírus para outras pessoas. A falta dessa informação limita alternativas de priorização nos programas de vacinação. Caso as vacinas evitem a reprodução do vírus (a infecção), a alternativa possivelmente mais eficiente para acabar mais rapidamente com a pandemia seria priorizar os grupos populacionais que mais circulam pelas cidades e encontram com outras pessoas, por exemplo, os jovens. Caso as vacinas evitem a doença, mas não evitem a infecção, a melhor alternativa é priorizar os grupos populacionais mais suscetíveis às formas mais graves da doença, por exemplo, os idosos.

 

O fato de não haver até este momento evidência de que as vacinas evitem a infecção (a transmissão do vírus), evitem casos graves e mortes, e de que elas protejam por pelo menos um ano, não significa que haja evidência de que elas não proporcionem esses benefícios (Tabela 1). Pelo contrário, parece que há evidências indiretas que nos permitem ser otimistas. Por exemplo, em um grupo de 1.265 pessoas que teve COVID-19, produziu anticorpos IgG e foi acompanhado por seis meses, houve apenas 2 pessoas com reinfecção pelo SARS-CoV-2 (2 em 1.265 = 1 em 633), ambas assintomáticas (NEJM, 23 de dezembro de 2020, DOI: 10.1056/NEJMoa2034545), sugerindo que a reação imune natural contra este vírus protege contra futuras infecções, por pelo menos 6 meses (entre as pessoas que não tinham tido COVID-19 e eram IgG negativas, foram 223 infecções em 11.364 = 1 em 51). Possivelmente (ou provavelmente) a reação imune proporcionada pelas vacinas seja similar ou até mais robusta, pois representa um “desafio” controlado / dosado para desencadear a melhor resposta imune possível, i.e., a resposta imune “ideal” (uma adaptação natural dificilmente evolui para proporcionar a melhor função possível; ela tende a evoluir para proporcionar uma função suficiente, mas não ideal).

 


 

Esclarecendo mal-entendidos comuns

 

O que significa 95% de eficácia?

 

Respostas comuns:

 

1- Significa que 95% das pessoas vacinadas não terão COVID-19 (ou que de cada 100 pessoas vacinadas, 95 não terão COVID-19).

 

2- Significa que as pessoas vacinadas terão 95% menos sintomas.

 

3- Significa que as pessoas vacinadas terão sintomas 95% mais fracos.

 

Todas as três respostas acima estão erradas.

 

Eficácia de 95% significa coisas diferentes em diferentes populações. Vamos ver o que 95% de eficácia significou na população do estudo da Pfizer-BioNTech (Pfizer), depois vamos simular o que significaria na população brasileira e na população da Nova Zelândia.

 

No estudo da Pfizer, 18.198 indivíduos receberam a vacina e 18.325 indivíduos receberam o placebo, que geraram 2.214 pessoas-ano no grupo de vacina e 2.222 pessoas-ano no grupo do placebo (aproximadamente 2 meses de seguimento por pessoa nos dois grupos) sob risco de adoecer antes da ocorrência do desfecho primário principal (sintomas de COVID-19 confirmada com teste para presença do SARSCoV-2).[1] No grupo da vacina, 8 pessoas tiveram COVID-19 e no grupo do placebo 162 tiveram COVID-19. Os cálculos da eficácia então foram os seguintes:

 

Incidência no grupo da vacina: 8 em 2.214 pessoas-ano = 0,0036≈0,004;

Incidência no grupo do placebo: 162 em 2.222 pessoas-ano = 0,0729≈0,07;

Razão de incidências = 0,0036/0,0729 = 0,049 ≈ 0,05;

Eficácia = 100 x (1-razão de incidências) = 100 x (0,95) = 95%.

 

Então, no grupo sem vacina, seria como se a incidência fosse de 7% por ano (“seria” ao invés de “foi”, porque os participantes não foram de fato acompanhados por um ano). Ou seja, em cada 1.000 pessoas não vacinadas, 70 contrairiam COVID-19 em um período de um ano. No grupo vacinado, seria como se a incidência fosse de 0,4% por ano. Ou seja, em cada 1.000 pessoas vacinadas, 4 teriam COVID-19 em um período de um ano. Essa diferença de 70 em mil para 4 em mil (ou de 7% para 0,4%) é uma diferença de 95% menos casos entre os vacinados em comparação com os não vacinados. Isso é o que significa 95% de eficácia (Figura 1).

 


Figura 1. Incidências de COVID-19 no grupo que recebeu a vacina (4 por mil pessoas-ano) e no grupo que recebeu o placebo (70 por mil pessoas-ano) no estudo da Pfizer-BioNTech. A diferença relativa entre 4 e 70 gerou a eficácia de 95%.

 

Reparem então que a resposta 1 (95% das pessoas vacinadas não terão COVID-19 ou de cada 100 vacinadas 95 não terão COVID-19) está errada. No estudo da Pfizer, foram 18.198 vacinados (2.214 pessoas-ano) e 8 tiveram COVID-19. Então, a incidência de COVID-19 no grupo vacinado foi 0,4%, ou seja, 99,6% das pessoas vacinadas não tiveram COVID-19 (e não 95% como muitas pessoas têm falado). Em comparação, no grupo não vacinado, 93% não tiveram COVID-19. A resposta 2 (as pessoas vacinadas terão 95% menos sintomas) está errada, pois os estudos não mediram quantos sintomas ou quantos episódios de sintoma cada pessoa teve, portanto, a eficácia relatada pelos estudos não se refere a isso. A resposta 3 (as pessoas vacinadas terão sintomas 95% mais fracos) está errada, pois os estudos também não mediram a intensidade dos sintomas (por exemplo, fraco, moderado ou forte), então, a eficácia relatada pelos estudos também não se refere a isso.

 

Em suma, neste momento, a eficácia dessa vacina responde à seguinte pergunta: de cada 100 pessoas não vacinadas que tiveram COVID-19, quantas não teriam tido se tivessem sido vacinadas? No caso da vacina Pfizer, esse número foi 95 (ou 95% de eficácia). Notem que o sublinhado realça o fato de que a eficácia se refere apenas às pessoas que não tiveram COVID-19 devido ao uso da vacina. Como muitas pessoas não contraem COVID-19 mesmo não tendo sido vacinadas, o percentual de pessoas sem COVID-19 entre as vacinadas é maior do que 95% (99,6% no caso da vacina Pfizer), pois inclui também as pessoas que não teriam COVID-19 mesmo se não tivessem sido vacinadas.

 

Agora, vamos fazer uma simulação com os dados da pandemia da COVID-19 no Brasil. O que significaria 95% de eficácia considerando a incidência de COVID-19 no Brasil?

 

Houve 7.504.833 casos acumulados de COVID-19 confirmados no Brasil até 27 de dezembro de 2020; isso equivale a uma incidência de 3.571 pessoas por 100 mil habitantes no ano de 2020 ≈ 36 por mil. Se 100% da população brasileira tivesse sido vacinada com uma vacina com 95% de eficácia, teríamos tido 7.129.592 casos de COVID-19 a menos (ou 3.392 casos por 100 mil a menos ou 34 casos por mil a menos) (Figura 2).

 



Figura 2. A incidência de COVID-19 no Brasil foi de 7.504.833 até 27 de dezembro de 2020, período em que não houve vacina. Se toda a população tivesse sido vacinada com uma vacina com 95% de eficácia, somente 375.241 pessoas teriam contraído COVID-19.

 

Para aplicar a eficácia de 95% em populações com diferentes incidências de COVID-19 (ou em indivíduos com diferentes probabilidades pré-vacina), basta multiplicar a incidência (ou a probabilidade pré-vacina) por 0,05. Por exemplo: se a incidência for de 100% nas pessoas não vacinadas, será de 5% nas vacinadas; se a incidência for de 50% nas pessoas não vacinadas, será de 2,5% nas vacinadas; se a incidência for de 30% nas pessoas não vacinadas, será de 1,5% nas vacinadas.

 

Similarmente, se a vacina tiver eficácia de 60% (esta foi a eficácia aproximada demonstrada pela vacina da Oxford-AstraZeneca), multiplicar a incidência (ou a probabilidade pré-vacina) por 0,4. Por exemplo: se a incidência for de 100% nas pessoas não vacinadas, será de 40% nas vacinadas; se a incidência for de 50% nas pessoas não vacinadas, será de 20% nas vacinadas; se a incidência for de 30% nas pessoas não vacinadas, será de 12% nas vacinadas. A Figura 3 mostra a simulação para o Brasil com uma vacina com 60% de eficácia; o que significaria 60% de eficácia considerando a incidência de COVID-19 no Brasil? Nessa simulação, dos 210 milhões vacinados, quase 207 milhões não teriam contraído COVID-19. Isso significa que usando a vacina com 60% de eficácia, 98,6% dos vacinados não teriam tido COVID-19.

 



Figura 3. A incidência de COVID-19 no Brasil foi de 7.504.833 até 27 de dezembro de 2020, período em que não houve vacina. Se toda a população tivesse sido vacinada com uma vacina com 60% de eficácia, 3.001.933 pessoas teriam contraído COVID-19.

 

Do ponto de vista do indivíduo, o papel mais importante da vacina é evitar a COVID-19 e seus quadros mais graves. Do ponto de vista do controle da pandemia, o papel mais importante da vacina é evitar a transmissão do SARS-CoV-2 de pessoa para pessoa. Vamos ver a seguir como funciona o raciocínio do impacto da vacina do ponto de vista do indivíduo (relevante para cada pessoa - o que eu ganho individualmente ao me vacinar) e do ponto de vista da população (relevante para as autoridades de saúde pública e governantes – o que a população da minha cidade ou país ganha se todas as pessoas forem vacinadas).

 

Benefício da vacina sob o ponto de vista da população (controle da pandemia)

 

Como vimos, a incidência da COVID-19 na população é um aspecto chave para interpretar a eficácia da vacina. A mesma eficácia pode trazer muito benefício para uma população e pouco para outra. Por exemplo, o Brasil teve em 2020 uma incidência bem maior do que a Nova Zelândia. A princípio, então, a vacina traria mais benefício para o Brasil do que para a Nova Zelândia. Entretanto, a Nova Zelândia conseguiu ter baixa incidência ao custo de barreiras de entrada e saída de pessoas do país, de rastreamento e isolamento de infectados e alguns outros cuidados para evitar a introdução e transmissão do vírus. Com a vacina, a Nova Zelândia poderá relaxar esses cuidados, o que é obviamente desejável. Então, para estimar o benefício da vacina para a Nova Zelândia o correto é considerar a incidência esperada após o relaxamento das medidas de contenção do vírus, ao invés da incidência observada em 2020, quando o país adotou medidas extraordinárias para controlar a pandemia.

 

Todos os países desejam retornar aos padrões de contato físico / aglomeração pré-pandemia, independentemente do sucesso que tiveram nas políticas de distanciamento físico durante 2020. Por isso, para avaliar o benefício da vacina em diferentes países, possivelmente o correto é estimar a eficácia aplicada a três cenários plausíveis de incidência esperada pós relaxamento das medidas de distanciamento físico. Esses três cenários de incidência podem ser, por exemplo, os seguintes: 30%, 50% e 100%.

             

Na nova Zelândia, ocorreram 2.144 casos de COVID-19 até 27 de dezembro de 2020. Se toda a população tivesse sido vacinada com uma vacina com 95% de eficácia teriam ocorrido 107 casos e, com uma vacina de 60% de eficácia, 858 casos. Ou seja, usando uma vacina com 95% de eficácia, ≈99,99% dentre os vacinados não teriam tido COVID-19; usando uma vacina com 60% de eficácia, 99,98% dentre os vacinados não teriam tido COVID-19 (99,96% entre os não vacinados não tiveram COVID-19). Esses dados mostram que os benefícios da vacina na Nova Zelândia teriam sido muito pequenos, pois a incidência pré-vacina foi muito pequena (devido aos cuidados de isolamento).

             

Com o relaxamento das medidas de contenção do vírus, a Nova Zelândia poderia esperar uma incidência de 30% até o final de 2021, na ausência de vacina (devido à abertura do país para turismo e cessação da quarentena de entrantes). Qual seria então o benefício da vacina na Nova Zelândia neste cenário? A figura 4 mostra que, mesmo que toda a população seja vacinada com uma vacina com 95% de eficácia, 72 mil pessoas iriam contrair a COVID-19. Sem vacina, no entanto, o número de pessoas com COVID-19 seria 1.440.000. Como houve menos de 3 mil casos em 2020, possivelmente a Nova Zelândia achasse inaceitável 72 mil casos em 2021. Assim sendo, aquele país poderia optar por manter algumas medidas não farmacológicas de isolamento (algumas barreiras no turismo por exemplo) e/ou rastreamento de infectados, mesmo após a vacinação de toda a sua população com uma vacina com 95% de eficácia.  

 

O benefício da vacina sob o ponto de vista populacional é mais claro ainda para países com alta incidência da COVID-19, como é o caso do Brasil. Ver seção “Impacto populacional das vacinas no Brasil, presumindo que 100% da população seja vacinada”.

 



Figura 4. Simulação de incidência de 30% de COVID-19 na Nova Zelândia em 2021, após relaxamento das medidas de isolamento. A incidência de COVID-19 na Nova Zelândia neste cenário seria de 1.440.000 casos até o final de 2021. Se toda a população for vacinada com uma vacina com 95% de eficácia, 72.000 pessoas contrairiam COVID-19.

 

Benefício da vacina sob o ponto de vista do indivíduo (risco de contrair COVID-19)

 

Dentro de uma população, a probabilidade pré-vacina de contrair a COVID-19 é um aspecto chave para avaliar a probabilidade de benefício da vacina para uma pessoa especificamente. Uma pessoa com probabilidade pré-vacina alta (por exemplo, profissionais de saúde, policiais e funcionários de supermercados e farmácias) tem maior probabilidade de se beneficiar da vacina do que uma com probabilidade pré-vacina baixa. Todas as pessoas gostariam de voltar a circular livremente pelas cidades, se aglomerando fisicamente em diversas situações sociais, sem se preocupar em usar máscaras ou evitar apertos de mão, abraços e outras formas de contato físico. Também gostariam de viajar entrando e saindo de cidades e países, sem a preocupação de contrair ou de transmitir a COVID-19. A vacina é o meio pelo qual as pessoas esperam retomar a vida dessa forma, i.e., no padrão pré-pandemia de contato físico. Dessa forma, a probabilidade pré-vacina de contrair a COVID-19, com o início dos programas de vacinação, será bem maior do que durante o ano de 2020, em que havia o distanciamento físico e a inexistência de vacinas. Qual seria então a nova probabilidade de contrair COVID-19 diante da possibilidade da vacinação e sem a preocupação com o distanciamento físico e o uso de máscara?

             

Para ilustrar, vou apresentar como seria o meu raciocínio sobre o benefício da vacina especificamente para mim, como indivíduo. Durante 2020 pude permanecer praticamente isolado com minha mulher, pois meu trabalho pode ser adaptado para ser realizado 100% em casa. Quase todas as compras de supermercado, farmácia e de alguns outros itens foram realizadas online. Depois de alguns meses confinado, passei a sair para fazer exercício sozinho ao ar livre, aproximadamente três vezes por semana. Resumindo, minha probabilidade pré-vacina de contrair COVID-19 foi bem pequena em 2020, provavelmente menor do que a incidência da COVID-19 na população brasileira, que foi de aproximadamente 4%.

 

Suponho que minha probabilidade pré-vacina foi de aproximadamente 1%. Isso significa que, se eu continuar com o mesmo comportamento, i.e., tão isolado em 2021 quanto em 2020, o meu risco de contrair COVID-19 em 2021 passaria de 1% para 0,05% se eu tomasse a vacina com 95% de eficácia ou para 0,4% se eu tomasse a de 60% de eficácia. Isso equivale a uma redução no risco de 10 em mil para 0,5 em mil (95% de eficácia) e de 10 em mil para 4 em mil (60% eficácia). Neste caso, a probabilidade de eu me beneficiar da vacina seria bem pequena, pois o risco de eu contrair COVID-19 foi bem pequeno, mesmo sem a vacina.

 

Mas, como não quero continuar isolado em 2021 e gostaria de retornar às atividades presenciais e a ter contato físico próximo com as pessoas, a minha probabilidade pré-vacina de contrair a COVID-19 (ou seja, o meu risco de contrair COVID-19) aumentaria para aproximadamente 30% (esse parece ser o risco de contrair COVID-19 entre pessoas que convivem com algum membro da família que teve COVID-19). Como quero sair do isolamento, mas não estou disposto a correr um risco de 30% (acho muito alto), pretendo sair do isolamento domiciliar somente após tomar a vacina e se ela me proporcionar um risco de contrair COVID-19 bem menor do que 30%. Então, qual é a probabilidade de eu me beneficiar da vacina? O meu risco de contrair COVID-19 em 2021 passaria de 30% para 1,5% se eu tomasse a vacina com 95% de eficácia ou para 12% se eu tomasse a de 60% de eficácia. Isso equivale a uma redução do risco de 300 em mil para 15 em mil (95% de eficácia) e a 300 em mil para 120 em mil (60% de eficácia). A probabilidade de eu me beneficiar da vacina seria bem grande, especialmente da vacina com 95% de eficácia. Concluindo, para retornar às atividades presenciais, eu não estou disposto a correr um risco de 300 em mil; muito alto para mim. Mas, se a vacina reduzir o meu risco para 15 em mil, eu acho bem aceitável (lembrando que meu risco é de aproximadamente 10 em mil, estando totalmente isolado). Por outro lado, a vacina com 60% de eficácia reduziria meu risco para 120 em mil (de 300 em mil sem vacina), o que está acima do risco que eu estaria disposto a correr. Neste caso, eu tomaria a vacina, mas continuaria relativamente isolado (provavelmente menos do que eu fiquei em 2020).

 

Além desse raciocínio em termos de probabilidade de benefício próprio individual, caso a vacina evite a infecção (a transmissão do vírus), que é, como vimos, uma possibilidade plausível, ainda que não comprovada por enquanto, tomar a vacina protegeria não somente a mim, mas também as outras pessoas com as quais eu tenho contato físico. Tomar a vacina é, portanto, também um ato de cuidado com o próximo, pois protege (possivelmente) as outras pessoas da infecção pelo SARS-CoV-2. Além disso, quanto mais pessoas tomarem a vacina, mais cedo atingiremos a tão almejada imunidade de grupo (ou imunidade de rebanho).

 

Este é só um exemplo de como uma pessoa pode fazer escolhas bem informadas, juntando a informação científica sobre a eficácia da vacina, com a probabilidade pré-vacina de contrair a COVID-19 e o julgamento individual subjetivo do quanto risco está disposta a correr (e fazer as outras pessoas correrem) para sair do isolamento domiciliar. As duas primeiras se baseiam em informação científica objetiva (deve ser a mesma para todas as pessoas), enquanto a última é um julgamento subjetivo individual e pode variar de pessoa para pessoa.

 

Impacto populacional das vacinas no Brasil, presumindo que 100% da população seja vacinada

 

Se a eficácia da vacina for de 95% ou de 60%, quais seriam os impactos das vacinas no Brasil, em um cenário de restrições como foi em 2020 e em um cenário de alívio das restrições como esperamos que seja em 2021?

 

Primeiro, uma simulação com os dados da incidência de COVID-19 no Brasil em 2020 (7.504.833 =3,6%), para uma vacina com 95% de eficácia e outra com 60% de eficácia. Essa incidência de COVID-19 no Brasil ocorreu durante grandes esforços de distanciamento físico, fechamento de comércio e escolas, uso de máscara e outras medidas não farmacológicas para evitar a transmissão do vírus, portanto, é uma incidência bem mais baixa do que a esperada em circunstâncias normais de vida. Alternativamente, uma outra simulação caso a incidência esperada (pré-vacina) de COVID-19 seja de 30% entre os não vacinados no ano de 2021 (63.000.000). Essa é uma incidência plausível considerando a transmissibilidade do vírus SARS-CoV-2 em circunstâncias normais de vida sem esforços de distanciamento físico e outras medidas não farmacológicas para contenção do vírus. Essas duas simulações esclarecem que tanto a eficácia de 95% quanto a de 60% são relevantes, principalmente quando a incidência esperada é mais alta, como será com o alívio das medidas de distanciamento físico. Por exemplo, em uma população com incidência esperada de 30% de COVID-19 em não vacinados, uma vacina com eficácia de 60% proporcionaria que 88% dos vacinados não tivessem COVID-19, ao invés de 70% (Tabela 2).

 



 Espero que essas simulações simples, que não consideraram aspectos cruciais, tais como variações na cobertura vacinal, tenham sido suficientes para esclarecer o enorme potencial das vacinas em nos auxiliar a acabar com esta pandemia de COVID-19 (autoridades públicas) e a pouco a pouco ajustarmos nossa saída individual dos diferentes níveis de distanciamento físico que nos impomos em 2020 (cada pessoa individualmente).

 

P.S. Há obviamente simulações bem mais sofisticadas e acuradas realizadas por especialistas em modelagem matemática de vacinas que informam os tomadores de decisões públicas.

Texto escrito entre a última semana de dezembro de 2020 e a primeira semana de janeiro de 2021.


Paulo Nadanovsky.

Epidemiologista FIOCRUZ e UERJ.

 



[1] Acompanhar 2 mil pessoas pelo período de um ano equivale a acompanhar 4 mil pessoas por 6 meses ou 8 mil pessoas por 3 meses ou 16 mil pessoas por 1,5 mês.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A pandemia da COVID-19 e o relaxamento das medidas restritivas no Brasil

 

É compreensível que após testemunhar uma grande redução no número de mortes pela COVID-19 as pessoas em alguns países tenham relaxado as medidas de isolamento. Mais difícil de entender e de aceitar é constatar o retorno de atividades não essenciais nos EUA e especialmente no Brasil, onde o número de mortes continua muito elevado. Desde o início desta pandemia até o dia 28 de setembro de 2020, os EUA sofreram 19.006 novas mortes na semana mais fatal e 4.070 na menos fatal depois deste pico, uma redução de 14.936 mortes em termos absolutos e de cinco vezes em termos relativos (Figura 1). No Brasil a semana mais fatal matou 7.677 e a menos, depois deste pico, 4.759 pessoas, uma diferença de 2.918 mortes, o que significa uma redução de apenas 1,6 vez. Desde então, não houve mais redução no número de novas mortes por semana no Brasil (Figura 1).

 

Figura 1. Número de novas mortes confirmadas por COVID-19 em uma semana. O eixo horizontal representa a semana mais fatal desde o início da pandemia, em março, até 28 de setembro de 2020 (1), a semana menos fatal depois de 1 (2) e a semana mais recente (findada em 28 de setembro de 2020) (3). O eixo vertical mostra o número acumulado de novas mortes na semana. O que chama mais atenção é a pequena mudança de 1 a 2 no Brasil, tão menor em comparação com os países desenvolvidos analisados aqui. Esses países também sofreram muitas mortes na semana mais fatal, mas reduziram drasticamente este número. Por isso, a inclinação da reta entre 1 e 2 nos outros países é bem maior do que no Brasil. A Coreia do Sul é a grande exceção positiva, pois conseguiu manter o número de novas mortes sempre em um nível muito baixo; por isso a linha da Coreia está praticamente horizontal desde a semana mais fatal (1), passando pela menos fatal após 1 (2) até a mais recente (3).

 

Em contraste com os EUA e especialmente com o Brasil, Reino Unido, Itália e Espanha tiveram entre cinco a sete mil mortes cada na semana mais fatal, mas reduziram drasticamente este alto número de mortes para menos de 50 mortes na semana menos fatal após este pico, com reduções de 135 a 506 vezes no número de mortes. Desde então, houve aumentos no número de mortes semanais confirmadas para 128 na Itália, 211 no Reino Unido e 737 na Espanha, na semana finalizada em 28 de setembro de 2020. Espanha e Reino Unido reintroduziram medidas restritivas diante deste aumento recente no número de mortes, ainda que ele esteja longe das mais de seis mil mortes nas semanas mais fatais. A Coreia do Sul é uma grande estória de sucesso, pois conseguiu manter o número de novas mortes semanais abaixo de 50 mesmo na semana mais fatal da pandemia naquele país (Tabela 1).

 


Tabela 1. Número de novas mortes confirmadas por COVID-19 em uma semana. Coluna denominada “maior número” representa a semana mais fatal da pandemia, até 28 de setembro de 2020, nos respectivos países incluídos na tabela. Coluna “menor número” representa a semana menos fatal após este pico e “mais recente” a semana findada em 28 de setembro de 2020. O que chama mais atenção é a pouca redução no número de mortes no Brasil (entre a semana com o maior número de mortes, i.e., mais fatal, e a semana com o menor número de mortes após este pico, i.e., menos fatal) e o sucesso da Coreia do Sul em manter o número de mortes abaixo de 50, até mesmo na semana mais fatal naquele país. Chama a atenção também a manutenção do alto número de mortes na semana mais recente, tanto no Brasil quanto nos EUA. Finalmente, todos os países estão testemunhando um aumento recente no número de mortes, o que fica caracterizado pelos números positivos na coluna da diferença entre a semana mais recente e a com o menor número de mortes depois do pico (penúltima coluna).



Curiosamente, a sociedade brasileira, com quase cinco mil novas mortes confirmadas na semana findada em 28 de setembro de 2020, vem testemunhando uma tendência comportamental na direção oposta ao esperado, ou seja, diminuindo as medidas restritivas. Atividades de lazer claramente não essenciais, tais como ir à praia, bar, restaurante e a prática de esportes coletivos foram retomadas por um grande número de pessoas, mesmo em cidades como o Rio de Janeiro, onde ainda têm sido confirmadas entre 200 e 400 novas mortes por COVID-19 por semana nas últimas 12 semanas (Figura 2). Shopping centres também já estão abrindo para compras presenciais e escolas para a presença física de alunos, professores e funcionários.

 

Figura 2. Cidade do Rio de Janeiro. Número de registros de novas mortes no eixo vertical. Cada barra representa uma semana. Por exemplo, a semana mais recente é representada pela barra 21-27/set; no Rio foram 354 novos registros de mortes pela COVID-19 de segunda-feira dia 21/9 a domingo dia 27/9.

 

 

Este comportamento aparentemente contraditório da população e das autoridades brasileiras precisa ser entendido. Contraditório porque a redução no número de novas mortes confirmadas pela COVID-19 no Brasil foi muito pequena, mas ainda assim autoridades e população concordam em relaxar as medidas de restrição de mobilidade e convívio social não essenciais. Ou seja, no passado recente houve no Brasil a aceitação de que devido ao número alto de mortes pela COVID-19 deveria haver restrições das atividades não essenciais, mas agora, passadas algumas semanas, o número de novas mortes confirmadas continua alto (redução foi somente de 1,6 vez, para aproximadamente 5 mil mortes semanais, em contraste com reduções de 135 a 506 vezes para menos de 50 mortes na Itália, Espanha e Reino Unido), não se aceita mais as mesmas restrições. Por quê?

 

O que mudou na pandemia no Brasil que estimulou o relaxamento, permitindo o retorno de atividades não essenciais?

 

Desde o texto mais recente deste blog em 27 de julho de 2020, portanto há dois meses, testemunhamos alguns eventos surpreendentes e difíceis de entender. Naquela ocasião eu escrevi o seguinte sobre o relaxamento das restrições às atividades não essenciais: “... é possível que as normas mais intensificadas de higiene, a atenção ao distanciamento físico, o uso de máscara, a imunidade adquirida nesta e em exposições a outros vírus e a atenuação evolutiva do SARS-CoV-2, evitem o aumento no número de mortes e até o reduzam. No entanto, é importante ter em mente que esta é uma aposta incerta e um risco que deve ser corrido de forma consciente. A aposta que está sendo feita é o relaxamento das restrições de mobilidade em um momento em que a transmissão do vírus ainda é muito alta e não há sistema robusto de identificação de infectados e rastreamento de seus contatos.” O resultado da aposta foi que, surpreendentemente, o relaxamento das restrições de mobilidade não foi associado a um aumento nas mortes pela COVID-19 na cidade do Rio de Janeiro; nos dois meses mais recentes, desde o final de julho até hoje final de setembro, período em que houve nítido relaxamento das restrições de circulação e aglomeração, o número de novas mortes confirmadas pela COVID-19 permaneceu entre 200 e 400 por semana (Figura 2).

 

Além disso e mais surpreendentemente, o excesso de mortalidade total que constatamos nos meses de abril e maio na cidade do Rio de Janeiro (2.788 e 4.583 mortes em excesso em 2020 em relação à média dos mesmos meses em 2018 e 2019) foi desaparecendo em junho (330 mortes em excesso) e reverteu em julho e agosto (660 e 355 mortes a menos, respectivamente, em 2020) (Tabela 2). Como interpretar mortes a menos em julho e agosto de 2020, meses em que houve entre 300 a 400 novas mortes por semana confirmadas por COVID-19? Se o número de mortes por outras causas permaneceu similar em 2018, 2019 e 2020, deveríamos constatar um excesso de 1.200 a 1.600 mortes em 2020, devido às mortes pela COVID-19 em 2020. Uma possível explicação para não ter havido esse excesso na mortalidade total a despeito do grande número de mortes pela COVID-19 em 2020 é a redução no número de mortes por outras causas em 2020 devida às medidas para conter a transmissão do SARS-CoV-2. Por exemplo, com a restrição de mobilidade na cidade, deve ter reduzido o número de mortes no trânsito e por homicídio. Com os cuidados higiênicos, o distanciamento social e o uso de máscara, deve ter reduzido mortes por outras viroses e doenças bacterianas. Com o redirecionamento dos cuidados médicos para a COVID-19 e o consequente racionamento dos tratamentos médicos eletivos de uma forma geral, deve ter reduzido o número de mortes por excesso de tratamentos médicos.

 

Tabela 2. Registro de óbitos por todas as causas na cidade do Rio de Janeiro. Números absolutos de mortes.


De qualquer forma, o número de novas mortes pela COVID-19 continuou alto durante esses dois meses mais recentes, período em que as pessoas foram relaxando cada vez mais as medidas de distanciamento social. Isso ocorreu no Brasil de uma forma geral, em locais com surtos mais recentes e mesmo em cidades onde o surto iniciou há muitos meses e continua com uma alta transmissão do vírus, como as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo (Figuras 2 e 3).

 

Figura 3. Cidade de São Paulo. Número de registros de novas mortes no eixo vertical. Cada barra representa uma semana. Por exemplo, a semana mais recente é representada pela barra 21-27/set; em São Paulo foram 222 novos registros de mortes pela COVID-19 de segunda-feira dia 21/9 a domingo dia 27/9.

 

Como vimos, o relaxamento no Brasil não pode ser explicado por alguma grande redução no número de novas mortes confirmadas pela COVID-19. O cansaço e o tédio do isolamento social podem ser uma razão. Além disso, há pessoas que precisam voltar a trabalhar fora de casa para conseguir sobreviver ou manter seu padrão de vida. Destaquei a frase anterior porque essas são motivações moralmente legítimas e, provavelmente, a razão mais forte para o relaxamento do confinamento domiciliar por uma grande parte da população brasileira. Porém, essa explicação por si só não basta. Vamos considerar um cenário hipotético em que a letalidade deste vírus fosse muito mais alta. Por exemplo, se a mortalidade entre os infectados fosse algo em torno de 50% (ou seja, para cada duas pessoas infectadas uma morresse), indubitavelmente não haveria muita dificuldade em convencer as pessoas, autoridades e governos a manter o isolamento social e as medidas de restrição às atividades não essenciais – pelo menos praia, bar, restaurante, esportes coletivos, shopping centres e escolas.

 

O valor que a sociedade brasileira atribui à vida humana

 

Minha hipótese para explicar o recente relaxamento das medidas de restrição de mobilidade no Brasil é a seguinte: população e autoridades perceberam que o número de mortes pela COVID-19 parou de crescer. Este fato forneceu uma ideia mais clara do risco de morrer por essa doença. Antes não tínhamos ideia do “tamanho da besta”, ou seja, não sabíamos onde poderíamos chegar no número de novas mortes. Passados quase três meses, não houve grande redução no número de novas mortes, mas também não houve aumento. Essa estabilidade no número de novas mortes foi testemunhada mesmo em cidades onde houve aumento na circulação e aglomeração de pessoas. Falta somente um detalhe para completar a explicação: o valor que a sociedade brasileira atribui à vida humana.

 

Conviver com 5.000 mortes adicionais por semana devido a uma nova doença parece ser aceitável para a sociedade brasileira. Por exemplo, aqui há aproximadamente 60 mil e 45 mil mortes por assassinato e por acidente de trânsito por ano, respectivamente. Considerando o tamanho da população, temos no Brasil 30 assassinatos e 22 mortes no trânsito por 100 mil habitantes por ano. Na Itália, Espanha e Reino Unido, é 1 ou menos assassinato por 100 mil habitantes por ano. Ou seja, 30 vezes a menos que no Brasil. Mortes no trânsito nesses três países não passam de 5 por 100 mil habitantes por ano.

 

Portanto, a sociedade brasileira convive com riscos de morrer por causas evitáveis muito mais altos do que as sociedades em países desenvolvidos. Por que com a COVID-19 seria diferente?


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Convivendo com mil novos registros diários de mortes pela COVID-19 no Brasil

Mil mortes e abertura de comércio, serviços e escolas

Já estamos há várias semanas registrando aproximadamente mil novas mortes por dia no Brasil por COVID-19. Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro esses valores têm variado aproximadamente entre 600 e 400 novos registros de mortes por semana. Na semana passada esses registros reduziram para 444 mortes em São Paulo e 320 no Rio de Janeiro (Figura 1).

 

Figura 1. Número de registros de novas mortes no eixo vertical (escala linear). Cada barra representa uma semana. Por exemplo, a semana mais recente é representada pela barra 20-26/jul; em São Paulo foram 444 novos registros de mortes pela COVID-19 de segunda-feira dia 20/7 a domingo dia 26/7.


Não é possível prever por quanto tempo conviveremos com esse nível de mortes pela COVID-19. Nas próximas semanas pode haver um aumento nas mortes por esta doença, pois muitas pessoas que estavam isoladas passaram a sair de casa e a se expor ao vírus SARS-CoV-2 pela primeira vez. Além disso, mesmo aquelas que não estavam confinadas parecem ter relaxado os cuidados de distanciamento físico. Um aumento no número de mortes é previsível devido à abertura do comércio, do lazer, de bares e restaurantes e possivelmente de escolas. Se metade da população se enquadrar nesta categoria (estava isolada e passou a sair de casa), podemos testemunhar uma duplicação no número de mortes, para aproximadamente duas mil novas mortes diárias registradas no Brasil sendo mil por semana na cidade de São Paulo e 700 por semana na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, com o aumento da mobilidade devem iniciar em outras cidades (até então livres do vírus) surtos do SARS-CoV-2 a partir do vírus importado de cidades como São Paulo, Rio e outras que já apresentam surtos locais.

Por outro lado, é possível que as normas mais intensificadas de higiene, a atenção ao distanciamento físico, o uso de máscara, a imunidade adquirida nesta e em exposições a outros vírus e a atenuação evolutiva do SARS-CoV-2, evitem o aumento no número de mortes e até o reduzam. No entanto, é importante ter em mente que esta é uma aposta incerta e um risco que deve ser corrido de forma consciente. A aposta que está sendo feita é o relaxamento das restrições de mobilidade em um momento em que a transmissão do vírus ainda é muito alta e não há sistema robusto de identificação de infectados e rastreamento de seus contatos.

Excesso de mortalidade por todas as causas

A restrição da mobilidade, do comércio, dos serviços e das escolas reduzem o risco de morte não somente pela COVID-19, mas também por outras causas, tais como acidente de trânsito, homicídio e outras doenças infectocontagiosas. Além disso, ainda que o acesso limitado aos serviços de saúde durante a pandemia da COVID-19 possa aumentar o risco de mortes por falta de tratamentos médicos necessários, ele pode diminuir o risco de mortes pela redução de tratamentos médicos desnecessários (https://www.bmj.com/too-much-medicine). Por exemplo, a menor exposição da população aos serviços de saúde durante a pandemia pode reduzir os casos de infecção hospitalar, de exames, cirurgias e radiações desnecessárias danosas, de tratamento precoce em programas de rastreamento que trazem mais danos do que benefícios para os participantes.

Portanto, o relaxamento das restrições de mobilidade tem potencial de aumentar não somente o risco de mortes pela COVID-19, mas também por outras causas de mortes. Por isso, a partir deste momento, pode ser útil conhecermos o nosso risco de morrer não somente pela COVID-19, mas por qualquer causa, durante a pandemia.

Uma forma de conhecermos este risco é calcular o excesso de mortalidade. O excesso de mortalidade pode ser estimado comparando a mortalidade por todas as causas (mortalidade total) nos meses da pandemia em 2020 com a mortalidade total nos mesmos meses de anos anteriores. A diferença entre a mortalidade total em 2020 e nos anos anteriores (i.e., o excesso de mortalidade) pode ser atribuída à pandemia. Parte desta diferença é devida à morte pela COVID-19 diretamente, que surgiu em 2020, mas não existia em anos anteriores, mas parte é devida indiretamente a mudanças em outras causas de morte durante a pandemia

(https://nadanovsky.blogspot.com/2020/05/comparacao-do-risco-de-morrer-pela_31.html).

O excesso de mortalidade geral é um indicador útil não somente para termos uma ideia do impacto da pandemia no risco de morrer de uma forma geral, mas também para não sermos enganados pela possível subnotificação de mortes pela COVID-19; a subnotificação pode ocorrer por diversas razões, incluindo a falta de testes laboratoriais para confirmação da doença e a manipulação de dados por motivações políticas.

Como temos convivido em semanas recentes com uma incidência relativamente constante de registro de novas mortes diárias, é interessante, do ponto de vista do indivíduo, verificar o impacto da pandemia no risco de morrer para cada 100 mil habitantes, pois ele pode representar um risco relativamente estável pelo menos nos próximos meses ou semanas. É importante notar que o risco relatado neste texto é a média na população toda, mas na realidade, o risco é maior nas pessoas mais velhas e menor nas mais jovens.   

Cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro

Em São Paulo houve excesso de 2510, 2188 e 3058 mortes em abril, maio e junho de 2020, respectivamente, comparado com as médias desses meses em 2018 e 2019 (https://transparencia.registrocivil.org.br/registros - consultado em 25 de julho de 2020). Por exemplo, em junho de 2018 e 2019 morreram em média 64 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto em junho de 2020 morreram 88 por 100 mil. Isso significa que houve excesso de 24 mortes por cada 100 mil habitantes em junho de 2020 (Tabelas 1 e 2).

  

Tabela 1. Registro de óbitos por todas as causas nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro – Números absolutos de mortes.

  

Tabela 2. Registro de óbitos por todas as causas nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro - Mortes por 100 mil habitantes.

 

 Para termos uma ideia do que este excesso de mortalidade significa, em 2017, a taxa mensal de mortes por 100 mil habitantes no Brasil pelas seguintes causas foram: cardiovasculares 16, cânceres 10, homicídios 3, trânsito 2

 (https://nadanovsky.blogspot.com/2020/05/comparacao-do-risco-de-morrer-pela_31.html).

 No Rio de Janeiro houve excesso de 41, 68 e 5 mortes por mil habitantes, em abril, maio e junho de 2020 (possivelmente os registros de mortes em junho no Rio de Janeiro estejam atrasados, o que justificaria a redução abrupta no número de registros de mortes – faremos novamente esta análise em meados ou final de agosto, para atualizar os dados de junho).

Conclusão

O excesso de mortalidade nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro nos meses da pandemia (abril, maio e junho de 2020) fez com que o risco de morrer nessas cidades aumentasse num grau acima do risco imposto pelos principais matadores habituais, por exemplo, doenças cardiovasculares (16 por 100 mil), cânceres (10 por 100 mil), homicídios (3 por 100 mil), trânsito (2 por 100 mil); em São Paulo, o excesso de mortalidade variou de 18 a 24 por 100 mil nos meses de abril, maio e junho de 2020. Com o relaxamento da restrição de mobilidade é esperado que a situação atual, que já é calamitosa, piore ainda mais, pois é plausível que aumente não somente as mortes pela COVID-19, mas também no trânsito, por homicídio, por outras doenças infectocontagiosas e pelo retorno da medicina em excesso (https://www.bmj.com/too-much-medicine).